Sentado em um banquinho de pacientes, aguardava meu atendimento na pequena fila dos Tronos. Seria o primeiro paciente, e depois de mim, ainda tinham outros dois, igualmente médiuns de nossa corrente.
Naquele trono de madeira, pintada de amarelo, característico dos pequenos Templos do Amanhecer, estava Pai Zé Pedro de Enoque. O Doutrinador ia chamarme como primeiro paciente, quando Pai Zé Pedro fez um sinal para que aguardasse um momento. Notei os olhos molhados do Ajanã, de onde desciam esquisitas lágrimas pelas faces, não sei por que contei-as…foram sete! Ao ser então chamado, não pude me conter e perguntei:
-Salve Deus Pai Zé Pedro! Conte-me por que externas assim uma visível dor? E ele, suavemente respondeu:
-Salve Deus, meu filho! Daqui a pouco saberão que estou presente, e estes humildes banquinhos estarão lotados, por aqueles que agora estão do lado de fora deste templo.As lágrimas contadas estão distribuídas a cada um destes seus irmãos.
A primeira, eu dei a estes indiferentes que aqui vem sem querer compreender a grandiosidade desta missão. Que ficam brincando com as coisas sagradas, entre um café e cigarro. Que falam das promessas divinas com ironia e duvidam até mesmo daquilo que inconscientemente estão fazendo…
A segunda, a esses eternos duvidosos que acreditam desacreditando, na expectativa de um milagre que os façam alcançar aquilo que seus próprios merecimentos negam. Vem pedir sempre e jamais agradecer, pois seus
olhos cegos não enxergam o grande esforço que é feito para poupá-los dos males de seus próprios erros.
A terceira, distribuí aos estão maus, pois não existe qualquer um que seja mau de verdade. Àqueles que somente procuram a Casa de Pai Seta Branca para saírem dizendo que estão vibrando neles, e esta vibração vai voltar em dobro, depois do trabalho que fizeram.
A quarta, aos frios e calculistas, que sabem que existe uma força espiritual, e procuram beneficiar-se dela de qualquer forma, e não conhecem a palavra gratidão.
A quinta, aos que chegam suaves, com risos, e elogios na flor dos lábios, mas se olharem bem o seu semblante, verão escrito: “Acredito em Pai Seta Branca, e em todas as Entidades, e em todos nossos trabalhos e rituais, mas
somente posso crer se minha vida melhorar, se eu me curar ou enriquecer, se não tiver condições não posso crer em nada.”
A sexta, eu dei aos fúteis que vão de Trono em Trono, não acreditando em nada que seja diferente do que querem ouvir, buscam aconchegos e conchavos e seus olhos revelam um interesse diferente.
A sétima, filho, percebeste como foi grande e como deslizou pesada? Foi a última lágrima, aquela que vive nos “olhos” de todos os Pretos Velhos. Fiz a doação dessas aos médiuns vaidosos, que só se preocupam com suas classificações, ou em comentar que estão incorporando tal Entidade de hierarquia. Esquecem que existem tantos espíritos precisando de caridade e luz. Tantos que aguardam, nas enormes filas do etérico, o amparo e o resgate. Tantos que vêm aqui como última esperança de encontrar, os que agora estão na fila de atendimento, suando o colete e prontos para sanar as suas dores. Assim, filho meu, foi para esses todos, que vistes cair, uma a uma as sete lágrimas de Preto velho.
Perólas de Pai João – Kazagrande | Adaptação do texto “As sete lágrimas de um Preto-velho”, de Autor Desconhecido, publicado em livro por W.W.da Matta e Silva (Mestre Yapacany)