2020 tem sido um ano muito diferente. Nosso ritmo de vida foi, bruscamente, desacelerado e, de repente, nos vimos presos dentro de casa. Foram meses de angústia, medo, mas também de uma proximidade com nossos familiares que nunca havíamos experimentado. Do nada, passamos a ter o tempo que sempre nos fugia das mãos. Muitos de nós aproveitaram esse tempo para meditar, se conectar com o sagrado, fortalecer seus laços com a espiritualidade. Outros, pelos mais variados motivos, desanimaram, alguns até perderam a fé. Vamos conversar.
Cada um de nós nasce com um roteiro a seguir, definido em comum acordo com os mentores que nos assistem. Claro que trilhar ou não essa estrada cabe ao nosso livre-arbítrio. Tudo o que sabemos sobre a jornada da nossa tribo Jaguar, de Capela até os dias atuais, nos leva a crer que a nossa missão, neste terceiro milênio, continua a mil por hora. São bilhões de sofredores aguardando o nosso amor, o nosso trabalho, a oportunidade de voltar para Deus. Lembrem-se: essa é a cura desobsessiva, a missão da nossa tribo, a nossa caridade.
Ver os Templos fechados no auge da pandemia foi forte, impactou, doeu no coração, mas não faria nenhum sentido, diante de tantas precauções e decretos, colocarmos a nossa saúde e dos nossos pacientes em risco. Desafiar a lei é uma coisa que nossa Mãe jamais ensinou. Graças a Deus, tudo começa a voltar ao normal, já voltamos aos trabalhos com o devido cuidado, porém, olhando pra trás, percebemos que alguns irmãos ficaram no caminho. Não conseguiram manter a fé intacta, se afastaram, alguns buscaram outra crença. Nada contra, devemos admirar quem tem a coragem de mudar, de ser honesto e de buscar a sua felicidade religiosa, onde for. Como dizia nossa Mãe: é lindo ver um católico na sua igreja, um protestante em sua fé missionária, um espírita no seu centro ou terreiro, todos em seus lugares, com a chama da fé acesa e buscando a Deus. Pode acontecer com qualquer um de nós. Porém, como nos foi orientado na nossa Iniciação: “se um dia não quiseres cumprir, volte, entregue as tuas armas, e nada te acontecerá”. Com a mesma honra que recebemos, devemos entregar as nossas armas quando partimos para outra fé.
Quero aproveitar essa oportunidade para abordar um tema que tem crescido muito no nosso meio: Jaguares frequentando terreiros. Não pode. Não deve. É cruzar corrente, sim. Foi nossa Mãe quem ensinou. Muitos tem sido levados por desejos e necessidades, como se os “luminosos terreiros”, como ela dizia, apresentassem a solução fácil para todos os problemas. O perigo está exatamente nessa palavra: fácil.
Meus irmãos, já vimos muitos Jaguares irem e voltarem, mas nunca uma realização que valesse a pena essa empreitada. Pelo contrário, com os pés nos dois lados, muitos ficam desequilibrados, obsediados, desiludidos, e a culpa não é dos espíritos, mas da falta de conduta e de compreensão dos que transitam sem responsabilidade. A nossa Doutrina é tão completa, todo o conhecimento e todas as ferramentas de que necessitamos estão nas nossas mãos. Basta trabalhar com amor e fazer direito.
Como já falamos antes, em outro artigo: praticar a verdadeira caridade. Ir para os trabalhos com o coração focado no paciente e no sofredor, e não em si mesmo. “Ah, mas eu trabalho tanto e nada muda na minha vida”… Vai ver, não está trabalhando direito. “Ah, mas num terreiro eu consigo tudo rápido”… Salve Deus! Consegue? A que preço? Vamos ouvir o que nossa Mãe tem a dizer sobre isso:
“Meus filhos, eu quero que vocês evitem frequentar casas que não são suas, isto é, igrejas e templos de outros princípios doutrinários. Terreiros!… Evitem, meus filhos, porque, quando chegar a hora, ninguém vai lhe acudir.
O terreiro é bom para quem o dirige, para quem é filho dali, é muito bom. Eu não estou desfazendo dos terreiros! Eu gosto dos terreiros e me dou bem com as pessoas que são de lá – os dirigentes, os médiuns, é tudo muito bacana. Mas, não fiquem cruzando forças! Vocês vão a um terreiro em busca de acertar as suas vidas materiais. Será que conseguem?
Se receberem algo, como será no momento do resgate? Nas nossas preces, nos nossos trabalhos, vamos pedir por nossa vida material. Se estiver com alguma carga negativa, trabalhe que se livrará desta corrente. A vida material não precisa nem de trabalho nem de terreiros. Quando estamos assistidos por esta Espiritualidade de Luz, nada nos falta!” (Tia Neiva, 21.12.80). Entenderam?
Meus irmãos, em nosso acervo universal, até a Espiritualidade Maior que nos assiste tem a luminosa presença dos Orixás: Simiromba, nosso Pai Seta Branca; Oxalá e seu Grande Oriente; Olorum e Obatalá, deuses que regem Aparás e Doutrinadores; Iemanjá, com suas sereias e o seu Povo das Águas; Oxóssi com seus cavaleiros; Oxum com seu Povo das Cachoeiras; Nanã, com seu Albergue; Omolu ou Xapanã, o nosso grandioso Cavaleiro da Lança Negra; Xangô, o nosso Divino Arakém… Vejam como a Doutrina tem suas raízes africanas bem firmadas. Nossos pretos velhos são as melhores manifestações dessas heranças. Temos tudo aqui.
Entendo que muitos sintam atração pelos terreiros, que achem bacana essa linha – e é linda mesmo, eu também acho. Tenho o maior respeito e amor pelas entidades que se manifestam e ali fazem o seu trabalho, mas repito: não é para nós. Somos Jaguares, somos Cavaleiros Verdes Especiais e Guias Missionárias Especiais, temos a nossa linha. Não precisamos buscar lá o que já temos aqui.
Se a identificação não existe mais, siga o seu caminho, busque a sua felicidade, mas não seja irresponsável. Cruzar correntes é algo muito sério. Manipular forças que não são nossas é perigoso, traz danos ao nosso equilíbrio. Mais do que isso, se comprometer com espíritos sem luz é caminhar à beira de um abismo: não sabemos o que pode acontecer.
Mas se você ainda sente em sua alma o poder da Chama da Vida, se chora quando sente a presença de nossa Mãe Clarividente, se não vive sem o cheirinho bom da amescla no braseiro, então, meu irmão, segure nas mãos benditas dos seus mentores, entregue a eles os seus anseios e trabalhe com fé, com alegria, pensando apenas no bem do seu próximo. A esperança deve sempre existir em nossos corações, pois ela é justamente a luz que temos que transmitir aos aflitos que nos procuram.
Jairo Zelaya



